segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A prática do movimento e o auto cuidado. O que estamos fazendo por nós e para nós?


Texto escrito por Cibelle Borges 

A pandemia além de escancarar as desigualdades sociais, de acesso a tecnologia e acessibilidade das plataformas digitais aumentou os nossos desafios e incertezas enquanto professores. Do dia para a noite nos tornamos equilibristas de pratos. Cada prato representa uma prioridade lembrando que tudo é urgente para aprender e precisamos manter a qualidade. Pesquise um curso sobre programação de vídeo aula, assiste tutorial para aprender as ferramentas digitais, use a conta de e-mail do filho, baixe app para entrar nas reuniões virtuais, não sabe se abre o microfone ou se fecha a câmera porque a internet tá instável e tem medo de digitar no chat com medo de não conseguir voltar da reunião. Pede indicação de site que cria vinhetas, série de podcast, cria canal, solicita seguidores para conseguir fazer lives e interagir com os alunos, assiste lives com diferentes temas pois entender sobre os protocolos e aprendizagem do ensino remoto também é prioridade. 

O tempo sentado na cadeira quase que triplicou e o tempo de tela? Será que alguém já calculou? Os verbos agora ampliaram para pesquisar, fuçar, desdobrar, planejar, arriscar, avaliar, incentivar, sensibilizar, inspirar, escutar, acalmar, responder e articular, porque esse movimento é cíclico dia a dia ele recomeça. O tempo de tela e de atenção foi também dimensionado, os dias estendidos e os meses intermináveis. Mentes exaustas e corpos engessados. Vida Ativa? Não está no prato como prioridade. Nosso olhar preocupado e atencioso com os alunos e pais escodem nossos medos e inquietações. Em que momento das nossas reuniões pedagógicas a prática do movimento é uma pauta importante? Qual tempo sobra para olharmos para o nosso corpo, afinal somos também seres integrais?

A oitava competência da Base Nacional Curricular Comum diz em letras garrafais “Auto cuidado e Autoconhecimento. Apreciar-se e cuidar da sua saúde física e mental”. Sabemos que é pensado para os alunos mas parte-se do princípio que nós professores e gestores escolares praticamos, experimentamos e refletimos sobre cada uma delas, mas será que tem acontecido mesmo? Até nos professores de Educação Física precisamos ter o olhar atento para essas questões que fazem parte de uma engrenagem do trabalho Educacional. A brincadeira, a dança, as posições do yoga, da ginástica, das lutas dos esportes devem também ser experienciadas nas nossas reuniões é uma inspiração ao auto cuidado oxigenação para o nosso cérebro que anda exausto de tentar equilibrar os pratos.

É preciso olhar para esses atores da escola e como diz a professora Rosaura Soligo: “todo professor mora dentro de uma pessoa e todo aluno também. E só essa consciência amorosa poderá salvar a escola”. Que possamos olhar com essa amorosidade a quem tem tentado incansavelmente investir em uma educação de qualidade a partir da sua realidade local com os recursos disponíveis. 


A professora Cibelle Borges é especialista em Didática pela Universidade de Santo Amaro (UNISA), subcoordenadora pedagógica do Instituto Esporte e Educação, viaja pelo Brasil dialogando sobre o Esporte Educacional e a Escola Ativa. cibelleborges@gmail.com


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domingo, 6 de dezembro de 2020

Educação Física e a Pessoas com Deficiência

 


Texto escrito por Natalia dos Santos 

O modelo médico, com suas raízes na Idade Média, influenciou diferentes áreas e profissões na sociedade. Dentre suas características tem a necessidade de categorização do indivíduo e por buscar padrões normativos. Na área da educação física não foi diferente, o modelo médico interferiu diretamente nas atividades, e sua relação com as pessoas com deficiência fez surgir a Atividade Física Adaptada que segundo Cratty (1975, apud MAUABERG-DECASTRO, 2011, p. 32) é um “programa diversificado de atividades desenvolvimentistas, aquáticas, rítmicas e expressivas, de jogos e de esportes cuja organização baseia-se em interesses e capacidades de indivíduos com deficiência [...]”. 

 A primeira proposta de Educação Física para pessoas com deficiência no Brasil surge em meados de 1958, com práticas voltadas ao modelo médico, por meio de exercícios corretivos e preventivos relacionados às questões patológicas da deficiência. Além do enfoque médico o esporte apareceu nesse cenário com o objetivo de inserção social da pessoa com deficiência, trazendo assim o Esporte Adaptado, modalidades esportivas criadas exclusivamente para pessoas com deficiência (COSTA; SOUSA, 2004; MAUERBERG, CASTRO, 2011).  

Enquanto a Educação Física teve forte influência de uma concepção de modelo de corpo perfeito e práticas voltadas ao desempenho físico e motor, a Educação Física Adaptada (EFA) se organizou para atender os excluídos, as pessoas com deficiência. 

O surgimento da Educação Física no Brasil como obrigatório dentro do contexto escolar se deu em meados do século XIX, mais precisamente em 1821 com a reforma denominada Couto Ferraz. Denominada como Ginástica, a Educação Física muito vinculada ao Modelo Higienista, deveria disciplinar e corrigir o corpo  (NEVES, 2006; XAVIER; MARRA; PIAU, 2004). 

Durante o século XX, segundo Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), a Educação Física Escolar no Brasil sofreu influência dos diferentes contextos no qual estava inserida, seguindo as referências políticas e educacionais e utilizada para atender os interesses das tendências do período a qual pertencia.  

Ainda no século XX, em especial na década de 70, que foi marcada pela inserção do esporte como fator que “desenvolve e aprimora forças físicas, morais, cívicas, psíquicas e sociais do educando” (BRASIL, 1998, p. 21), essa valorização foi um investimento do governo militar que comandava o Brasil. Essa esportivização iniciou uma busca por talentos nas Educação Física Escolar, fazendo com que os professores dessem ênfase a aptidão física de seus alunos nas aulas, apoiados em uma pedagogia tecnicista (BRASIL, 1998; NEVES, 2006). 

A década de 80 foi marcada por questionamentos sobre os modelos e objetivos da Educação Física Escolar apresentado até então. Havia um interesse em retirar da escola a necessidade de formar atletas, uma vez que essa intenção não obteve o sucesso esperado. Os debates originados por estudiosos e interessados da área começaram a questionar sobre o papel e a dimensão da Educação Física através das teorias críticas da educação (BRASIL, 1998). 

A Educação Física Escolar na perspectiva inclusiva deve dar oportunidades a todos os alunos para que desenvolvam suas potencialidades, de forma democrática e não seletiva, visando seu aprimoramento como seres humanos, junto com as demais disciplinas são responsáveis pela garantia de acesso e participação dos educandos, respeitando e assegurando direito à educação (MANTOAN, 2015). 

Atualmente a presença desses alunos nas escolas e salas de aula regulares é garantida por lei e essa garantia de direitos ao acesso e permanência, fizeram aumentar o número de matrículas. Assim, os atores envolvidos nos cenários educativos foram provocados a repensar suas práticas diante das novas propostas de ensino, que caminha na contra mão do ensino integracionista que marcou durante anos os ambientes escolares brasileiros, com salas de aulas especiais e as escolas de educação especial (REIS; MOTA; JESUS, 2017). 

Segundo Mantoan (2015, p. 28) “a inclusão implica uma mudança de perspectiva educacional, pois não atinge apenas alunos com deficiência e os que apresentam dificuldades de aprender, mas todos os demais”.   

Assim, entre os atores da educação responsáveis por atender esse contingente de alunos tem-se o professor de educação física, que busca a efetivação da inclusão das pessoas com deficiência dentro de suas aulas (FIORINI, 2011). 

A educação física inclusiva apresenta uma série de desafios aos professores e é preciso que se compreenda verdadeiramente sua concepção e a absorva para que repense a prática pedagógica e elabore aulas em que a diversidade humana é respeitada, possibilitando uma participação efetiva de todos os alunos. Segundo Fiorini (2011, p. 20) “o professor é o principal mediador do processo de ensino e de aprendizagem de habilidade esportivas e motoras de alunos com e sem deficiência”.  

A maneira como uma pessoa se relaciona frente ao sujeito com deficiência tem relação direta com sua percepção sobre o assunto. Carregados de seus entendimentos individuais sobre a inclusão, os professores foram desafiados a repensar suas aulas e atuar na perspectiva da Educação Física Inclusiva (VALLE; CONNOR, 2014).

Assim, fica a reflexão. Qual concepção sobre inclusão está presente em suas aulas diariamente? 


A professora Natalia dos Santos é especialista em Esportes e Atividades Físicas Inclusivas para Pessoas com Deficiência e docente dos cursos de Pós-Graduação de Educação Física Escolar nas Universidades FMU e Estácio. 


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sábado, 5 de dezembro de 2020

Relacionamento interpessoal no futebol


Texto Escrito por Rafael Cotta

Cada vez mais os profissionais buscam evoluir em conhecimento técnico e acompanhar as mudanças que ocorrem na ciência do esporte, principalmente no meio do futebol. 

Existem muitas opções de cursos e, no momento que vivemos, aumentam ainda mais as opções pela facilidade de se fazer um curso online, na comodidade da sua casa e na facilidade de se estudar pelo celular, na palma da mão, interagindo com o mundo todo. 

Tenho percebido uma grande preocupação em se atualizar, podemos exemplificar os profissionais da área do treinamento desportivo, buscando aprimorar seus treinamentos, leitura de jogo, etc. Ao mesmo tempo que fico feliz com o número de interessados em estudar e aprender cada vez mais sobre esta área técnica, me preocupa um outro ponto de suma importância, o relacionamento interpessoal. 

Partindo do pressuposto que, na grande maioria das situações, se tratando de futebol, os profissionais são contratados por conhecimento técnico, haja vista que no currículo enviado, as informações se baseiam em experiências profissionais e formações, e demitidos por problemas de relacionamento. Este fato me leva a sugerir a vocês leitores, primeiramente a ideia de desenvolver um estudo sobre o assunto, podendo quantificar e melhor esclarecer este assunto, e também, pensar um pouco sobre os comportamentos dos profissionais no dia a dia de trabalho. 

Sabemos que a maioria das nossas decisões, tomadas diariamente (por volta de 6000), são tomadas pela emoção, onde muitas vezes agimos de forma errada, sem pensar e usar a razão, podemos solucionar da melhor maneira. Temos que entender também, que lidamos diretamente com pessoas, de temperamentos e personalidades diferentes, acima ou abaixo de nosso posto e que precisamos ter auto controle para buscar a melhor resolução para os problemas diários. 

Aproveito o texto para sugerir aos leitores, um pouco de interesse pelas áreas da psicologia e da neurociência, assuntos que fazem a diferença no dia a dia e rendimento, considerando que a inteligência emocional é o grande diferencial no profissional atual. 

Concluindo, vale a pena a reflexão de que antes de atletas ou treinadores, entre outras funções, temos pessoas, comandadas pelo cérebro, que é o principal órgão no nosso corpo. Bons estudos a todos!


O professor Rafael Cotta é especialista em Fisiologia do Esporte, Gestão Esportiva e Treinamento Esportivo e Psicologia Positiva, atualmente é coordenador do Atlético Goianiense. rafael.cotta@yahoo.com.br


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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

COMPONENTE PSICOLÓGICO NO ESPORTE

 

Texto escrito por Rubens Costa

Qual o peso do componente psicológico no esporte de combate? Quanto pesa em relação aos demais elementos clássicos do rendimento esportivo como o físico o técnico e tático?

Esta é uma usual pergunta que, frequentemente, ouvimos de pessoas ligadas ao esporte quer treinadores, profissionais em geral, jornalistas, entre vários outros. 

É uma interessante questão que continuamente temos contabilizado respostas, oriundas daqueles únicos que têm a primazia e o saber de tê-las obtidas através de suas vivências, eles, os lutadores. Analisando as respostas obtidas de atletas de diferentes estágios de desenvolvimento esportivo, quer nacional, quer internacional e sob o critério eminentemente numérico, encontramos um grande intervalo entre os extremos. Habituei ao longo do tempo de minha atividade profissional, classificar em grupos estas respostas, de centenas de atletas que tenho trabalhado, adicionando informações coletadas através de artigos e intercâmbios com outros profissionais da área de Psicologia do Esporte e do Exercício.

A grande variância destas respostas se justifica na medida em que o peso do fator psicológico está intimamente atrelado, principalmente, ao conjunto de habilidades psicológicas esportivas destes atletas. Além de seus estágios de desenvolvimentos nesta área, os relacionamentos com a equipe, a frequência, intensidade e o grau de controle de suas emoções, e de seus comportamentos desafiadores durante competições de elevado nível técnico. 

Quais são estes grupos de respostas? 

Bem, há o grupo daqueles que creem fortemente que o componente psicológico tem uma influência de 30% no seu desempenho esportivo seguido por outros grupos de 40% de 50% de 60% de 70% de 80% de 90% e de até100%. 

Por outro lado encontramos também atletas que preferem sair do critério  numérico e de difícil mensuração, substituindo pela forma  analítica e descritiva. Para este grupo encontramos diversas avaliações, onde destacamos as mais significativas:

“Para mim é tudo, nada adianta meu físico minha técnica e tática se minha cabeça não estiver bem no dia da competição.” 

“Tudo vem a perder se não controlar minha mente.” 

“No dia da luta tem que controlar a pressão.” 

“Já perdi luta com meus pensamentos destruidores.” 

“Já perdi luta por estar super nervoso e muito ansioso.”  

“Já ganhei luta com o meu psicológico equilibrado.”

“Não posso entrar numa competição com dúvidas, assim tenho que me preparar psicologicamente para isto.” 

“Tem que ter confiança para repetir em luta  tudo que treino.” 

“Nada de ficar negativo com relação a mim mesmo.” 

“Sinto que estando preparado emocionalmente, tudo fica mais fácil, pois passo a confiar em minha capacidade.“ 

“Tenho que pensar positivo sempre, preciso de treino psicológico para me ajudar.” 

“Tenho que concentrar naquilo que devo fazer para impor minha superioridade   técnica.” 

“A parte psicológica é super importante, tenho que ficar ligado na luta, pois  qualquer distração, já era.” 

“Preciso sempre pensar positivo e sobre o que devo fazer.”  

“Preciso estar feliz no dia da competição, a preparação psicológica me apoia”. 

“Tenho que sentir melhor comigo mesmo cada vez mais, assim a parte psicológica ajuda a competir bem.” 

Podemos dizer com segurança, que não há um percentual único e exato do peso do componente psicológico em competições, mas também afirmar com 100% de certeza que um atleta que se apresentar de forma desequilibrada em seus aspectos psicológicos, terá 100% de probabilidade de que não conseguirá produzir esportivamente tudo que sabe e treinou.


Rubens Costa é Psicólogo do Esporte e do Exercício, Bacharel em Administração de Empresas, Escritor e Palestrante. Atua profissionalmente atendendo atletas e público em geral. Lançou em julho de 2020 o livro ISOLE O SEDENTARISMO, VENCENDO O MONSTRO SOFÁ-BOMBA. isoleosedentarismo@gmail.com


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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Educação Física no Atendimento Socioeducativo


Texto escrito por Guilherme Astolfi Nico

Um dos interessantes campos de atuação dos profissionais de educação física é o atendimento socioeducativo. Apenas em um Estado da federação há aproximadamente 400 profissionais da área diretamente ligados à instituição executora das medidas privativas e restritivas de liberdade, além dos mais de 100 professores de educação física da rede estadual de ensino, que têm suas aulas atribuídas as respectivas salas das unidades socioeducativas vinculadas a escola pública, na qual estão lotados. 

As medidas socioeducativas - MSE são medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, aplicadas pelo judiciário e destinadas a adolescentes, entre 12 e 18 anos incompletos, a quem se atribui a prática de ato infracional, que é a conduta descrita como crime ou contravenção penal cometida por criança ou adolescente. Quando o ato infracional é praticado por criança, pessoa até 12 anos incompletos, podem ser utilizadas as medidas de proteção previstas no artigo 101 do Estatuto; já o adolescente está sujeito as medidas previstas no artigo 112 do ECA, que estabelece como medidas socioeducativas: a advertência, a obrigação de reparar o dano, a prestação de serviços à comunidade, a liberdade assistida, a semiliberdade e a internação, além da possibilidade de aplicação também das medidas de proteção. Destaque para a exigência da lei, para que a internação ocorra em estabelecimento educacional – inciso IV do art. 112. Portanto não é apenas um desejo é uma exigência legal que toda unidade de atendimento socioeducativo seja uma escola, estabelecimento educacional voltado ao atendimento dos socioeducandos. 

A medida de internação pode durar até 3 anos.  Por conseguinte, o jovem pode permanecer institucionalizado até os 21 anos incompletos. Daí temos que a população de uma unidade socioeducativa pode variar na faixa etária dos 12 anos aos 21 anos incompletos. Lembrando que a medida de internação é a medida mais grave dentre as medidas aplicáveis, deve ser excepcional, breve e restrita a intervenção necessária, em atenção aos princípios da brevidade, da excepcionalidade e da mínima intervenção. Destarte as MSE são regidas principalmente pelo ECA e pela Lei 12.594/2012 que instituiu o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo - SINASE. 

Considerado o exposto nessa breve introdução, ressaltamos que as medidas socioeducativas devem se distanciar do caráter retributivo, em hipótese alguma ser comparada ao tratamento dado ao adulto - modelo penal/prisional, e ter sem dúvida inequívoca, de modo claro e certo como norteador central desse processo a responsabilização de natureza educativa, alicerçada nas ações que devem objetivar a interrupção da trajetória infracional, a reinstituição de direitos e a inclusão social, cultural, profissional, esportiva, educacional e por vezes até familiar do adolescente; enquanto sujeito de direitos e não como mero objeto de intervenção. Desiderato da doutrina da Proteção Integral. Atentando à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, com potencial e direito a desenvolvê-lo. Neste processo que visa a desaprovação da conduta infracional, a reflexão sobre as consequências lesivas do ato praticado, mas sobretudo o empoderamento do adolescente enquanto cidadão crítico e participativo na sociedade, sem deixar de lado a sua subjetividade, autonomia e protagonismo na construção do seu projeto de vida. 

Costumo dizer que, via de regra, os e as adolescentes chegam ao sistema socioeducativo por F.O. (Falta de Oportunidade), porque tudo até então falhou. Falhamos (antes, durante e depois) enquanto sociedade, Estado (titular 1º deste dever), profissionais, família e comunidade, pois somos os responsáveis conforme preconiza o art. 227 da CF por assegurar à criança, adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, abuso, maus tratos, opressão, enfim é necessário garantir com máxima prioridade todos os direitos e oportunidades efetivas para o desenvolvimento infantil e juvenil. 

O último levantamento anual do sistema socioeducativo, que é do ano de 2017, mostra que temos no Brasil aproximadamente 26 mil adolescentes em medidas privativas e restritivas de liberdade (semiliberdade, internação e no programa de internação provisória - aqueles que estão aguardando decisão judicial), e em torno de outros 120 mil adolescentes em medidas socioeducativas no meio aberto (Liberdade Assistida – LA e Prestação de Serviço à Comunidade – PSC). Embora desatualizado o levantamento retrata um cenário gigantesco, mas este enorme contingente de jovens é apenas a ponta do iceberg que retrata a dura realidade que decorrem dos problemas sociais, das desigualdades, da carência de políticas públicas prioritárias, da falta de vontade e ética política, das infinitas violações de direitos, entre outras tantas injustiças que emperram o elevador social. Enorme desafio de atuação, onde só ações articuladas e integradas podem ser eficazes diante desta situação complexa e circunstâncias cruéis do panorama atual, o qual acredito queremos reverter. Todavia somos incompletos enquanto pessoas e instituições, desta forma ninguém mais consegue dar conta do seu recado sozinho, isolado em suas ações e reféns de suas demandas diárias. É urgente a necessidade de promoção da intersetorialidade, que mais que um desejo é também uma exigência legal. Porém, quem seria ou é o responsável pela intersetorialidade das políticas, pessoas e serviços? Tecnicamente são os silenciosos conselhos de direitos, são eles os primeiros responsáveis em promover a articulação e integração Intersetorial, mas é também dever de todos nós. Bom, e onde entra a Educação Física nesse cenário? 

Bastaria o profissional de educação física que atua no SINASE contribuir como profissional que tem o objetivo de desenvolver e trabalhar a saúde desses adolescentes, e as questões procedimentais do exercício, o fazer esportivo, por exemplo? É evidente que não. Além de ser direito a escolarização, a profissionalização, a cultura, o esporte, o lazer, a prevenção, entre outros, é acima de tudo obrigação do Estado e das entidades que desenvolvem os programas de internação, art. 94 – ECA. Qual educação física desejamos então para este universo das MSEs? Pensando na internação, medida mais severa das aplicadas aos adolescentes a quem se atribui a prática do ato infracional, onde permanecem em média por 1 ano (variação para mais ou para menos de acordo com o Estado da federação em que estiver cumprindo a medida, e as vezes há variações em regiões dentro do mesmo Estado), privados de liberdade, em espaço restrito, institucionalizados, por vezes em estabelecimento verticais, inadequados, com estrutura prisional, por outras tantas vezes, insalubre, sem espaços apropriados para atividade física, negligenciada principalmente nas unidades femininas. Independente desde difícil cenário a educação física tem que contribuir efetivamente com a formação e capacitação humana dessas pessoas, mostrando caminhos possíveis, pavimentados por articulações formais e fortalecidas, com compromissos firmados por força de protocolos interinstitucionais e também agregando demais parcerias possíveis e necessárias, para que sirvam como molas propulsoras e sejam potentes gatilhos para que esses jovens cidadãos possam trilhar os caminhos que almejam, possibilitando condições mais justas, igualitárias e democráticas. 

O professor de educação física, sim professor, porque na atuação educacional somos professores, na socioeducação mais que em qualquer outro lugar, precisa ser parte estruturante da ação educativa e social voltada ao seu aluno, sim aluno. É preciso pensar, perseguir e firmar parcerias, articulações com a rede, com a comunidade, durante a medida, mas também objetivando ações pós-medida. Desejável ainda que possa cooperar com ações preventivas, mas isso é assunto para outro momento. Outro grande desafio é adequar seus objetivos considerando os interesses dos alunos, a heterogeneidade e a grande rotatividade do seu público alvo, diferente das escolas com turmas regulares anuais, seus alunos serão de diferentes idades, de níveis educacionais distintos e irão chegar, compor a turma e deixá-la em tempos diferentes. Para tanto é preciso planejar levando em consideração também estas características. De modo que os conteúdos precisam ter finitude breve, moldadas a essa realidade. Outro ponto que não é exclusividade apenas das instituições socioeducativas, mas é preponderante nesse ambiente, é a ausência de planejamento, desarticulação com o propósito institucional, prevalecendo o laissez-faire, “deixar fazer”, criando como diria Makarenko o vazio pedagógico, onde nesse buraco alguém imaginaria que poderia atuar, ocupar o espaço, ou ainda entender que pode desenvolver atividades de educação física, porque seria simples,  factível por qualquer pessoa, pois quando observada se resume ao famoso TDJ, conhecido nas instituições socioeducativas de internação, que é o Tira (dos alojamentos, as vezes celas) Divide (em times) e Joga, em outras vezes nem isso. Além das dificuldades materiais e arquitetônicas, há em diversos locais, aceitação e até celebração do charlatanismo, demonstrando descaso com o melhor nível profissional que é esperado do professor, que por vezes apenas adota a postura de observar o fazer, em outras palavras, o total laissez-faire. 

Sustento que o papel do professor de educação física no atendimento socioeducativo deve ser semelhante mas deve ir além ao do professor da educação formal, ou seja, abordar os conteúdos da cultura corporal de movimento, versando sempre as dimensões do conteúdo (conceitual, atitudinal e procedimental), com planejamento prévio sistematizado e com propósito claro. Acredito que nesse universo o compromisso do professor ultrapassa essas fronteiras, considerando a especificidade do atendimento, as circunstâncias e o público alvo, a dimensão do papel do professor deve ser ampliada fortalecendo as ações de articulação, participação e exercício do e no convívio social, ocupando espaços que na maioria das vezes o adolescente desconhece, ou acredita que não tem acesso ou direito de frequentá-los. Apontando para seu pertencimento e influência na sociedade no presente e no futuro, facilitando sua inclusão para quando estiver em liberdade, como ser gregário que somos. 

É imprescindível que existam ações para esse fortalecimento participativo enquanto cidadão sujeito de direitos. Observo na minha prática de 20 anos na socioeducação que isso tem funcionado melhor quando encontramos professores de educação física que inspiram seus alunos, favorecendo o desenvolvimento de habilidades, virtudes e dons que muitas vezes estavam adormecidas, promovendo mudanças de hábitos e comportamentos que resultam em desdobramentos positivos em outros aspectos da vida desses jovens, que por sua vez demonstram maior motivação, mostram-se engajados, com foco em seus objetivos, ampliam a relação de confiança com o professor, que de certa maneira passa ser um mentor. Professores fortalecidos como membros ativos da equipe coesa, que almeja por meio do atendimento integral, o bem-estar, o querer bem do educando, na atenção acima de tudo humanizada. Porque reconhecem a individualidade e valorizam a diversidade, o potencial, e desta maneira favorecem o desenvolvimento das habilidades mais urgentes de serem estimuladas de acordo com o diagnóstico individual, promovendo a verdadeira e efetiva inclusão desde jovem que chega invisível, por conta disso muito vulnerável e não pode sair novamente invisível e ainda pior, estigmatizado, rotulado, desacreditado, discriminado. Portanto o trabalho que é esperado do professor de educação física socioeducativo, é diverso, exige dedicação, compromisso, para que a voz do adolescente seja ecoada, possui outras preocupações para atender/abranger essas tantas necessidades de dimensões diversas, que devem compor um planejamento estratégico maior, mas do qual o professor de educação física deve ser figura presente e atuante, contribuindo principalmente com as ações na sua área de conhecimento, buscando parcerias, fluxos definidos de participação e encaminhamento à rede, envolvido intensamente, mergulhado no olho do furacão da socioeducação e não como um simples/mero apêndice nesse processo. 

Vimos que o universo de atuação no sistema socioeducativo é amplo, ao mesmo tempo contagiante, visceral para aquele que mergulha nesse campo, por ser tão dinâmico, sem rotina e com tantas interfaces. Exige do profissional, além da formação específica em educação física, vocação, dedicação e conhecimentos da área da infância e juventude, adolescências, conhecimentos gerais, sociológicos, filosóficos, psicológicos, jurídicos, de hebiatria, de neurolinguística, de comunicação, de liderança, de gestão de pessoas. Além dessas competências técnicas, precisa desenvolver competências emocionais e comportamentais. Isso requer a formação permanente, na ideologia do conceito Life Long Learning – LLL (Aprendizagem ao longo de toda vida). Exigindo do profissional a disposição de estar sempre em mudança, máxima flexibilidade, solicitude, humildade, coerência e não se acomodar na zona de conforto, estar propício, disponível e preparado para a reinvenção constante, se moldando ao seu público e à realidade dinâmica da mudança permanente, diante da acelerada e alucinante revolução tecnológica, que molda velozmente as exigências da educação para o século XXI! 


O professor Guilherme Astolfi Nico (CREF/SP 055.139 G/SP) é licenciado em Educação Física pela UNICAMP, bacharelado em Direito pela Universidade São Francisco/SP; Especialista em Pedagogia da Cooperação pela Universidade Monte Serrat e em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília. Atua no sistema socioeducativo do Estado de São Paulo, como Técnico da Gerência de Educação Física e Esporte.


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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A Gestão de Projetos e o Profissional de Educação Física


Texto escrito por ​João​ ​Gambini

Há muito se fala em ações, propostas, objetivos e métodos de trabalho na área de educação física e esporte com vistas a facilitar a realização de eventos, competições e outras tantas atividades. Na formação do profissional de Educação Física as aulas de organização de eventos esportivos dão uma introdução à metodologia de tipo de gestão de projetos, ainda que distante dos métodos mais complexos e ou dos mais ágeis desenvolvidas pelo mercado.

A gestão e elaboração de projetos compõem uma temática importante que é cada vez mais requisitada em todas as áreas e instâncias profissionais, e para a nossa área - educação física, saúde, esporte, lazer e recreação, não é diferente. A todo o instante nos é requerido mais conhecimento e aplicabilidade do que sabemos na gestão de projetos, pois a cada dia a área se reinventa, se amplia e se diversifica provocando mudanças e repercutindo em todos os profissionais que nela atuam. 

A gestão de projetos em educação física e esportes é uma ação estratégica.

Esse movimento busca alternativas para as grandes e profundas mudanças que têm acontecido na sociedade e provocadas por todo tipo de intercorrências como crises econômicas, climáticas e mesmo sanitárias, como o caso da pandemia que estamos enfrentando. Busca-se uma visão mais abrangente não só do mercado da Educação Física, mas de um domínio do saber ou expertise sobre outros campos como da administração, tecnologia, marketing, comunicação, finanças, plano de negócios e, por transversalidade a tudo isso, do conhecimento sobre métodos de elaboração e gestão de projetos.

Há muitos cursos - presenciais e online - de gestão de projetos, baseados em métodos mais tradicionais, métodos mais ágeis e híbridos, em que os profissionais e estudantes de Educação Física podem aproveitar para se iniciar a partir de uma introdução e ou se aprofundar em conteúdos que podem levá-los ao aprofundamento e mesmo a certificação como profissionais de gerenciamento de projetos. 

Mas a pergunta até aqui pode ser a seguinte: Por que esse assunto da gestão de projetos é importante? Nesses já 40 anos de formado tive a oportunidade de conhecer e me aprofundar nesse tema e percebi como pratiquei que quase 90% do nosso trabalho enquanto Profissionais de Educação Física é baseado em gestão de planos e projetos. Gerimos pessoas em treinamento, em equipes, instalações, pesquisas, políticas, ações, eventos e aulas, sim, muitos planos de aulas e de progressão. Nossa área pede esse conhecimento e se não nos posicionarmos e nos colocarmos para assumir com efetiva responsabilidade e atitude estaremos abrindo mão de um campo de evolução, progresso e carreira enorme. 

Portanto, aprender sobre gestão de projetos e suas metodologias e ferramentas visa fortalecer a formação e capacitação daqueles que atuam com a realidade profissional que o mercado exige. Visa ocupar com competência o nosso lugar na gestão da nossa área de atuação.

Então, busque cursos cuja abordagem seja teórica e prática com direcionamento para a elaboração, execução e avaliação de projetos, itens críticos para a gestão. Assimile os conceitos abordados que normalmente incluem o conhecimentos desenvolvidos a partir de experiências, estudos e práticas em gestão de projetos elaboradas por organizações internacionais como o PMI (Project Management Institute EUA) e sobre a metodologia de projetos aplicados às áreas de negócios; o conhecimento em gestão de projetos aplicados à área socioeducacional com suas diferentes concepções e aplicações, e o conhecimento em gestão de projetos focado no desenvolvimento pessoal, profissional, como projetos de carreira e empreendedorismo.

Caros, o Profissional de Educação Física - nós - até podemos ficar sem nos envolvermos com esse tema, mas certamente esse conhecimento em gestão de projetos vai acabar caindo no nosso colo ou na nossa cabeça e, na minha concepção pessoal, como gestor de projetos e de pessoas envolvidas em projetos tenho certeza que precisamos continuar nos desenvolvendo nesse assunto porque nossas organizações e vidas dependem dessa atualização pessoal e profissional constante. 

Fica aqui a dica, busque se desenvolver como gestor de projetos, ideias, pessoas, negócios e da sua vida. Encare que sua profissão provoca mudanças no seu entorno e quanto mais você puder se aperfeiçoar mais efetivos serão os resultados dessas mudanças.


O professor ​João​ ​Omar​ ​Gambini​ (​CREF​ ​005302​ ​G/SP) é especialista em Administração e Organização do Lazer e Recreação pela Anhembi/Morumbi; MBA​ em  ​Administração​ ​de​ ​Projetos​ pela ​FIA; Pós-graduado​ ​em​ ​Gestão​ ​de​ ​Negócios​ pela ​FGV; Executivo do ​SESC de São​ ​José​ ​dos​ ​Campos, entre os anos de 2006 e 2015; Conselheiro​ do ​CREF4/SP de 2007 a 2018; e atualmente é Chefe de Gabinete do Gerente Executivo do CREF4/SP. joaogambini@gmai.com


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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Esporte para Impacto Social - dignidade e direitos humanos.


Texto escrito por Rosangela Domingos 

A Declaração Universal de Direitos Humanos norteia a universalidade e indivisibilidade dos direitos humanos. O preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que o reconhecimento da dignidade inerente e dos direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo. 

É evidente que, a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a dignidade humana é uma ideia moral fundamental, em vez de um conceito legal, e, portanto, teoricamente dá as bases ou justifica leis e normas políticas que visam proteger as necessidades e interesses humanos fundamentais (Churchill, 2006). A dignidade foi definida em termos das condições mínimas de vida necessárias para um nível aceitável de existência humana (Nussbaum, 2006).

Outra forma de definir a dignidade aponta que um individuo a possui quando é livre para formar suas próprias intenções e pode agir de acordo com elas sem interferência (Driver, 2006).

Alguns teóricos versam que pessoas têm dignidade caso vivam suas vidas de acordo com as normas de sua comunidade, suas práticas e tradições. Essa forma de pensar é mais restrito do que o permitido por uma concepção de dignidade na autonomia. Certos comportamentos, por exemplo, podem ser avaliados como indignos e, portanto, eticamente inaceitáveis, caso acredite que violem normas sociais no seu território (Beyleved e Brownsword, 2001). 

Uma concepção mais comum de dignidade presente na literatura atenua a ideia de que a dignidade depende de a pessoa ser bem-sucedida de algum modo. Concatenando com esse ponto de vista, os indivíduos têm dignidade caso estejam se realizando como seres humanos, com suas habilidades únicas plenamente desenvolvidas (Miller, 2007; Nussbaum, 2006).

Traremos para reflexão, Beyleved e Brownword (2001) que fizeram um ensaio de unificar seus vários significados fazendo uma distinção entre dignidade como empoderamento e como restrição. 

A noção de dignidade como empoderamento ressalta a notoriedade da autonomia e da liberdade de movimento para os seres humanos ao longo das suas vidas. O empoderamento enfatiza o valor da autogovernança e para a capacidade e oportunidade dos indivíduos de exercerem ativa e livremente os objetivos que selecionaram sem interferência de outros. 

O segundo, dignidade como restrição, reconhece seus vínculos delimitados sobre o modo como os indivíduos são tratados e também como ocorre interação e integração. Nessa perspectiva, as pessoas apenas mantêm sua dignidade se seguem as normas de sua comunidade e não agem de maneira a atrair vergonha sobre si ou outros.

Dialogando com o pensamento de Beyleved e Brownword, a dignidade dos seres humanos está localizada na capacidade de formular e perseguir os seus interesses no mundo, sem interferência injustificada de outras pessoas. Mas, o julgamento dos próprios indivíduos não são os únicos determinantes do que constitui uma vida digna. Para poder atuar em busca de objetivos pessoalmente selecionados, e sua tradução em planos de ação, as necessidades básicas também devem ser atendidas, bem como fornecidas oportunidades educacionais e suporte sociais.

O esporte e direitos humanos 

Há questões sociais no Brasil na qual não foi possível erradicar a pobreza extrema, por exemplo, indivíduos e ou famílias inteiras em situação de rua, crianças e adolescentes em condições vulneráveis a drogas ilícitas e a violência física e psicológica, falta de alimentos nutritivos, água portável para se hidratar e para higienização mínima. 

A discussão acima sobre o conceito de dignidade está ligada ao relacionamento da pessoa com outros de sua comunidade e, sem dúvida, com a humanidade. A dignidade depende da interconexão. E o esporte promove isso. 

A implicação aos profissionais de educação física que atuam em projetos de educação social para indivíduos em situação de vulnerabilidade, indivíduos em situação de rua, indivíduos no sistema carcerário, e adolescente em cumprimento de medida socioeducativa, é que todos os atendidos e as atendidas têm o direito a tratamento que reflitam essa dignidade inerente. 

Mesmo que indivíduos tenham agido de forma antiética e merecedora de sanção reparadora ou punitiva não significa que percam sua condição de iguais, ou seja, quaisquer respostas a atos infracionais cometidos por adolescentes ou crimes cometidos por adultos, devem ser desenvolvidos de modo a garantir o respeito.

As ações envolvem a promoção de conversas e atividades de sensibilização sobre o papel dos gestores, funcionários, docentes e alunos em relação ao respeito e asseguramento dos direitos humanos, na qual baseia-se em três características fundamentais: (a) autonomia ou a capacidade de tomar decisões importantes para si; (b) posse de um conjunto de recursos e capacidades mínimas, como educação, saúde e segurança para desenvolver-se; (c) liberdade, onde outras pessoas não impeçam alguém de aplicar sua própria concepção do que seja uma vida que vale a pena ser vivida (James Griffin, 2008, p. 33).

Programas esportivos de intervenção social devem fortalecer as habilidades individuais para atuarem como agentes morais e, assim, procurar equipá-los com habilidades de enfrentamento da vida, tais como habilidades de autorregulação e habilidades para resolução de problemas e ampliar suas competências emocionais.

Uma reflexão final gostaríamos de pontuar a necessidade de o Estado promover uma política voltada para o esporte e o lazer à luz dos direitos humanos. Isto significa propor políticas em primeiro plano, de inserção das camadas mais excluídas e discriminadas, das crianças e dos adolescentes, enquanto prioridade efetiva, dos portadores de deficiência, dos negros e negras, dos povos indígenas e dos pobres de um modo geral.

Os profissionais de educação física devem estar cientes de que o esporte não fará milagres, mas estará associado a outras ferramentas educacionais voltadas ao desenvolvimento humano. 


A professora Rosangela Domingos é mestre pela Universidade Anhanguera de São Paulo e atua na Fundação Casa/SP. 


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