segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O corpo negro na Educação Física escolar


Texto escrito por Igor Moreira 

O presente ensaio tem com proposta provocar alguma reflexão sobre o corpo negro na Educação Física escolar, esse ácido caminho se depara com algumas formas do racismo, dentre eles, o científico, institucional e estrutural.

Não rara as vezes deparamos com narrativas que dizem que o negro é bom para o esporte. Falsos discursos que se aportam nas “ciências”, para “subsidiar” essas narrativas, dentre elas, que o negro é melhor na corrida de velocidade por ter mais fibras musculares tipo branca, em detrimento a corrida de longas distâncias, que requer mais as fibras vermelhas, ou retóricas que a população negra tem dificuldade com a natação, devida sua densidade corporal. 

Ao pensar no domínio dos quenianos e etíopes na corrida de São Silvestre, já invalida a questão das corridas de longas distâncias, se a premissa é falsa, a afirmação não é verdadeira. No que tange a natação não se discute o não acesso do negro nas piscinas, sendo a piscina símbolo de riqueza, a população negra está longe dessa condição. Outro ponto referente a esse esporte, é que a grande maioria dos nadadores são formados dentro de clubes particulares, como Pinheiros em São Paulo, Minas Tênis Clube em Belo Horizonte, locais de acesso a população branca, ou seja, como aprender a nadar fora da piscina?

Para esconder as estruturas racistas que permeiam no Brasil, utiliza-se de uma única ciência, a biológica e de forma equivocada. De igual forma ocorreu no mundo e no Brasil, através do racismo científico, na falácia da construção de raças, justificaram a escravidão no mundo e em nosso país. No Brasil, as teorias científicas racistas apontavam que em 100 anos, através da miscigenação, o país seria constituído só por pessoas brancas, a pureza da “raça” ariana.

Essas falácias mesmo desmascaradas continuam vigentes pelos racistas, como por exemplo, quando se estreita o negro ao esporte, com base em uma falsa ciência; essa “teoria” tem como base as atividades corporais que não necessitava do intelecto, retomando a ideia do processo de escravidão; o pensar, o civilizado, a capacidade de liderança é de domínio do homem branco.

Com base no exposto acima, adentramos ao mundo da educação formal e a Educação Física escolar. A escola por ser na maioria das vezes o primeiro espaço de relação entre pessoas fora do núcleo familiar,  não raras vezes o contato da menina , do menino negro com o racismo é  no ambiente escolar.

No artigo “O papel central da escola no enfrentamento do racismo” pelo portal Geledés, apresenta- se parte da desigualdade entre brancos e negros no sistema educacional. E sendo a escola elemento nevrálgico para qualquer mudança comportamental, discussões antirracistas devem fazer parte do cotidiano escolar.

E nós professores de Educação Física temos que valorar o corpo negro, não esconde-los no fundo da sala, ou da quadra, mas valorizar e não reduzir, “ao/a menino/a” bom/a de futebol. Enaltecer e explorar as potencialidades de um corpo que historicamente é marcado pelo enfrentamento das adversidades, um corpo cujo teor da sua melanina e dentro de estruturas racistas como a nossa, faz o espaço da rua ser seu único local de “privilégio”. 

Explorar esse corpo construindo possibilidades de protagonismo em todas vertentes que permeia a cultura corporal de movimento e a educação como todo. Um corpo emancipado que não se restringe a biologia e não adentre a lógica disciplinar de Foucault (2006).

Compreendemos a complexidade da temática, pois em um racismo institucional, pensada por estruturas racistas, inviabilizam o acesso a esse conhecimento; não nos ensinam a temática negra na escola e muito menos nas faculdades, mas em analogia e consonância com Arendt (2002, p.39) “Muitos dizem que não se pode lutar contra o totalitarismo sem compreende-lo. Felizmente isso não é verdade; se fosse, nossa causa estaria perdida”. Ou seja, nós professores de Educação Física escolar, mesmo sem um bom letramento racial, podemos contribuir na luta antirracista de forma significativa, valorizando em todas as possibilidades e potencialidades o corpo negro. Pois:

a educação possui um papel transformador e central na sociedade, de modo que, se a construção de um ensino antirracista envolve múltiplas abordagens e perspectivas, isso se deve ao caráter estrutural e sistêmico que o próprio racismo possui em nosso cotidiano. Educar para a diversidade, enfrentando as desigualdades, é um desafio histórico que demanda escuta, atenção e compromisso com a equidade. (GELEDÉS, 2020)


O professor Igor Moreira é mestre em Políticas Sociais e docente no curso de educação física da Escola Superior de Cruzeiro - ESC. 


O Instituto Esporte Vale atua na formação de profissionais competentes para o ensino do esporte. 

www.ievale.com.br


Acreditamos no poder transformador do esporte


Você que compartilha dessa ideia, siga o IEVALE nas redes sociais, compartilhe nossos conteúdos e contribua para juntos avançamos no diálogo sobre o esporte.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Estimule o protagonismo no ensino do esporte

 


Texto escrito por Téo Pimenta

O esporte se constitui como um ótimo meio para formação humana, no entanto, devemos refletir como tornar clubes e escolas em espaços potenciais para tal. Imediatamente, torna-se necessário ressignificar a ação pedagógica e redefinir caminhos didáticos-metodológicos.

Muito se discute o fins educacionais do esporte na atualidade, se compara os objetivos entre clubes e escolas e se discute as diferenças entre os dois espaços, não acreditamos que esta seja a questão central, mas destacamos, em especial, uma questão: como o esporte seria apresentado e desenvolvido nos lugares em questão?

Neste sentido, corroboramos as ideias de Daolio (1995 apud REVERDITO; SCAGLIA, 2019, p. 19) “[...] uma proposta metodológica para o ensino na educação física deve considerar a história e a cultura dos alunos, pois os movimentos corporais são culturais e detentores de significados”.

O esporte se constitui como um dos fenômenos culturais mais importantes do século 20 e que teve sua origem como possibilidade formativa para uma elite nos espaços das escolas inglesas no final do século 18, se espalhou e se consolidou para as sociedades pelo mundo no século 19 com a contribuição dos clubes e escolas, que tiveram um papel fundamental na população e massificação do esporte. 

No entanto, existem desafios, como: acompanhar o avanço do conhecimento, tanto teórico quanto prático, reconhecer as contribuições das pesquisas para ambos os campos, aproximar os estudos acadêmicos dos profissionais da prática, estimular a práxis, que se constitui na conexão e interligação dos saberes teóricos e práticos, ressaltamos que seria ideal e necessário religar os saberes teóricos e práticos, urgentemente. Somamos a estes desafios temos a condução do processo de iniciação esportiva, pelo senso comum dos ex-atletas, que pautam suas ações nas suas experiências práticas, sem a devida fundamentação teórico-científico.

É importante destacar as contribuições da pedagogia do esporte, embora se trate de um campo acadêmico novo, obteve rápidos e expressivos avanços no rompimento de um ensino tradicional, que proporcionou auxílios tanto no ensino do esporte na escola quanto no clube, demonstrando ser uma área promissora, que de fato vem contribuindo para ações no campo prático-pedagógico. 

Acredita-se, que uma iniciação esportiva bem conduzida é de extrema importância para a sequência das outras etapas da formação no esporte, no entanto, no seu oportuno momento é necessário um aprofundamento dos conteúdos ensinados, sem a profundidade, o esporte não será aprendido efetivamente. 

Desta forma, ampliar as discussões relacionado ao ensino do esporte e caminhar na propagação e construção de modelos de ensino mais interacionista, com abordagens humanistas (ROGERS), cognitivas (PIAGET; VYGOTSKY) e sociocultural (FREIRE) torna-se fundamental. Neste sentido o papel do professor não pode ser minimizado como um mero facilitador ou mediador, ser professor não se trata de uma tarefa simples, requer um nível elevado de conhecimento, habilidades e capacidades para problematizar o conhecimento a ser ensinado. Desta forma, os professores deverão procurar romper com métodos tradicionais (técnica fora do contexto), avançar para propostas interacionistas (técnica desenvolvida no jogo) e construir ações que possibilitem os alunos a desenvolverem a percepção, ação, tomada de decisão e protagonismo do aluno. 

Aprender esporte, não é diferente de qualquer outro aprendizado, requer empenho, dedicação e protagonismo, desta forma, os alunos devem ser colocados no centro do processo de ensino-aprendizagem e os professores devem estimular o conhecimento e apresentar o esporte de forma desafiadora para todos os alunos, não apenas para a parcela mais habilidosa do grupo, o ensino deve ser igual à todos.

Por fim, o professor de educação física, no contexto atual, constitui-se como o responsável pelo ensino do esporte. Por vezes, em alguns momentos, é importante observar e procurar intervir pouco, assim, estará estimulando um maior protagonismo dos alunos no processo de ensino aprendizado.


Téo Pimenta é mestre, professor no curso de educação física da Faculdade Anhanguera de Taubaté e diretor do IEVALE. 


O Instituto Esporte Vale atua na formação de profissionais competentes para o ensino do esporte. 

www.ievale.com.br


Acreditamos no poder transformador do esporte


Você que compartilha dessa ideia, siga o IEVALE nas redes sociais, compartilhe nossos conteúdos e contribua para juntos avançamos no diálogo sobre o esporte.


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O fenômeno chamado esporte


Texto escrito por José Martins Freire Júnior 

O esporte está presente na sociedade há séculos, manifestando-se de diferentes formas e com inúmeros significados, sendo praticado nos mais diversos locais do planeta. Como aponta Finck (2012, p.93) “O esporte como fenômeno social se manifesta em diferentes contextos e tem objetivos distintos”.  

Nas escolas, é uma manifestação da cultura corporal, como afirma os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), que pode ser ensinada de várias formas e com métodos diversificados.  Sendo assim, o professor de Educação Física tem grande responsabilidade ao ensinar aos alunos os diferentes conteúdos relacionados ao esporte, pois dependendo da maneira que o faz, poderá ou não contribuir de forma significativa para um aprendizado voltado para autonomia, para emancipação, com participação efetiva dos alunos, aspectos preponderantes para uma educação democrática.

Pois "uma prática excludente e seletiva, que impede crianças, adolescentes e jovens de serem livres e de desenvolverem sua autonomia e criticidade, contradiz os atributos educativos [...]" (MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004, p. 11).

O esporte faz parte da nossa cultura e contribui de várias formas para a vida das pessoas, e está presente em diferentes contextos, públicos: escolas, parques e praças, ou privados: clubes, escolinhas de esportes e ginásios.

Bracht (2005) relata que o conceito de esporte precisa abarcar inúmeras possibilidades, pois há um grau de diferenciação muito grande no contexto esportivo, no qual destaca-se as seguintes classificações: esporte de alto rendimento ou de rendimento, esporte de lazer e esporte educativo. Sendo que há uma busca constante por conceitos que expliquem as diferenças entre tais classificações, no Brasil em 1985, José Sarney instituiu uma comissão de reformulação do esporte brasileiro, inclusive foi incorporado pela Constituição Federal de 1988, na qual diferenciou o conceito do esporte em 3 classificações, sendo elas: deporto–performance, desporto–participação e desporto–educação.

Apesar da diferenciação em sua classificação, elas se aproximam, principalmente o esporte-educação, com esporte-participação, dos quais um adentra ao “espaço” do outro, pois é possível enxergar o esporte–participação dentro de um ambiente educacional, como a essa prática de caráter educativo pode estar presente a todo momento, tendo como determinante a forma de sua aplicação, não tendo como relevância o local de sua execução. 

De acordo com Marques, Almeida e Gutierrez (2007), o esporte possui diferentes manifestações que estão relacionadas a duas categorias. A primeira refere-se ao sentido da prática ligada às intenções e ao contexto na qual ocorre, a segunda categoria corresponde à modalidade que se desenvolve por meio de atividades que possuem caráter esportivo, ou seja, possuem regras, normas e órgãos reguladores. Enfim, toda atividade esportiva possui um sentido e se manifesta por meio de uma modalidade que irá expressar os valores e atitudes pelos quais se orienta.

Pode-se perceber que esporte é um componente de destaque mundial, consequentemente é apontado como um dos fenômenos sociais mais expressivos na atualidade e que teve a sua expansão atrelada às transformações sociais que ocorreram nos últimos anos, conquistando uma posição diferenciada em vários campos, sendo eles: político, econômico, educacional, cultural e social (KORSAKAS; ROSE JÚNIOR, 2002).

Vago (1996) aponta que o esporte é considerado uma prática cultural, que incorpora valores sociais, culturais, econômicos, estéticos e utiliza diversos espaços da sociedade para acontecer. Entre esses espaços podemos citar: ruas, parques, clubes, escolinhas de esportes, entre outros espaços de lazer e claro a escola, que é o foco do estudo. 

Dialogamos com Taffarel (2000), quando a autora descreve que o esporte não pode ser analisado de forma isolada e fora do contexto das inúmeras relações e interações que possui com a sociedade, pois desta maneira é dar-lhe uma autonomia inexistente. Esse tipo de análise considera uma visão totalmente idealista de que o “desporto é algo bom em si mesmo” e que está acima de tudo e de todos.

Nota-se a emergência da vinculação entre as políticas esportivas e o discurso da promoção da cidadania ou de inclusão social” (MELO, 2005, apud NOGUEIRA, 2011, p. 111).

Ou seja, pratique esporte que será um sujeito de sucesso, de caráter, reduzindo apenas a um fator complexidade da construção do sujeito, apropriando-se do estereótipo que para chegar a “glória esportiva” o atleta é constituído de inúmeros valores e valências que quase o torna um “super-homem”.

Mas para uma real eficácia do esporte no auxílio da construção do sujeito é necessário que sua prática seja voltada para a emancipação do indivíduo e não tenha com determinante, o econômico, reproduzindo a lógica capitalista da submissão do homem.

 

O professor José Martins Freire Júnior é mestre em educação física e docente no curso de educação física da Escola Superior de Cruzeiro - ESC.


O Instituto Esporte Vale atua na formação de profissionais competentes para o ensino do esporte. 

www.ievale.com.br


Acreditamos no poder transformador do esporte. 


Você que compartilha dessas nossas ideias, siga o IEVALE nas redes sociais, compartilhe nossos conteúdos e contribua para juntos avançamos nos diálogos sobre o esporte.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Ensine mais que esporte


Texto escrito por Gabriel Silva 

Por trás de todo um conteúdo esportivo a ser ensinado, de fundamentos técnicos a táticos de determinadas modalidades há o trabalho de um profissional que atua como mediador e organizador destes conteúdos que serão ensinados.

Quando ensinamos para além das técnicas e táticas dos jogo, os alunos são capazes de entenderem e compreenderem os valores sociais que o esporte pode promover, o professor deixa de ser um mero transmissor do conhecimento e e passa a contribuir na construção do conhecimento ao aluno e assim, auxilia na formação social dos indivíduos. 

A atual sociedade se apresenta cada vez mais competitiva, da qual a derrota é quase que insuportável aos atuantes do esporte, mas saber lidar com ela é algo necessário, pois faz parte do esporte e sobretudo da vida .

Entretanto, quando analisamos a finalidade do esporte nos ambientes escolares, projetos sociais, e até em espaços de ressocialização, caso dos presídios, é perceptível que os professores irão buscar por meio do esporte um melhor convívio e interação coletiva dos participantes.

Mas como conseguir de fato êxito neste aspecto se o esporte, por si só, em sua essência, se apresenta competitivo, uma vez, que a disputa entre duas equipes anseiam-nos a querer vencer a qualquer custo? E como intermediar tudo isso?

É neste momento que o papel do professor é crucial para que o esporte seja ressignificado e reinventado aos que participam. Carol Dweck (2019) em seu livro “Mindset: a nova psicologia do esporte” alerta aos profissionais que ao estimular a seus alunos se referenciarem nos “melhores”, logo estará promovendo uma grande probabilidade de frustração futura, pois há diversas dificuldades para que consiga atingir no mínimo um mesmo nível de capacidade, seja ela física, tática, técnica, entre outras. Já quando o praticante foca em ser melhor que ele mesmo a cada dia, assim está desenvolvendo o poder do esforço. Para que quando ocorrer derrotas, o aluno não se martirize pelos resultados e sim se auto avalie sobre sua evolução ou regressão.

Repare, o esporte não perde sua essência, mas por meio de algumas medidas estratégicas do professor, exclusivamente, será possível mostrar novos horizontes a seus alunos. Ainda pensando neste sentido, é totalmente viável que os próprios alunos procurem um ajudar o outro eu seus progressos individuais, sem que haja o bullying, as brincadeiras ofensivas e até violências físicas, que embora, às vezes possa ocorrer, o professor deverá estar presente para de fato expor os objetivos do esporte ali praticado.

Assim, o esporte amplia seu potencial e se transforma em uma ponte para atingir objetivos sociais na formação dos participantes. Toda essa construção de ideias só poderá ser realizada, possível, por meio de diálogos constantes e sistematizados estrategicamente nas rodas de conversas, que deve ser rotineira. O estímulo a buscar conhecimentos e a participação efetiva dos alunos todos juntos, isso, independente da idade, sexo, raça ou algum outro paradigma social imposto pela sociedade.

Portanto, quando ensinar o esporte, saiba que há diversos valores por trás desta prática e que cabe aos professores apontarem os olhares dos alunos aos valores desejados.

Gabriel Silva é licenciado em educação física e idealizador do Projeto Joga Mais que a partir da prática do futsal procura contribuir na formação de crianças e adolescentes de Ubatuba/SP.


O Instituto Esporte Vale atua na formação de profissionais competentes para o ensino do esporte. 


www.ievale.com.br


Acreditamos no poder transformador do esporte


Você que compartilha dessa ideia, siga o IEVALE nas redes sociais, compartilhe nossos conteúdos e contribua para juntos avançamos no diálogo sobre o esporte.



segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Entre “antas” e “trogloditas”: um breve diálogo com Jocimar Daolio


Texto escrito por Igor Moreira 

No feliz e importante artigo do professor Jociamar Daolio “A construção da cultura do corpo feminino, ou o risco de transformar meninas em ‘antas’”, ele inicia relatando um episódio quando lecionava educação física escolar, em aula que corria dentro da normalidade, quando um lance lhe despertou a atenção, após um saque no voleibol, sua aluna ao errar a recepção, rebela contra si, proliferando o seguinte dizer: “por que sou uma ‘anta’”? (DAOLIO, 2003, p.107). 

Esse substantivo feminino anta, de conotação de não capaz, “burro”, “idiota” entre outros adjetivos depreciativos que se manifesta de forma subjacente, ou explícita, quando ocorrido em aula, essa questão se faz necessário estar no âmago da discussão, mediado e problematizado pelo professor. 

Perante a fala da sua aluna, Daolio (2006) faz uma reconstrução teórica, aportando-se na cultura para entender algumas diferenças entre meninos e meninas no que tange a cultura corporal de movimento. 

Ao analisar a educação dada aos meninos em relação ás meninas, por si só já responde a indagação da garota que se martirizou em decorrência de um erro, mas para tanto, cabe a nós trazer alguns elementos dessa discrepância educacional, conjuntamente com o referencial teórico de Daolio (2006). 

Alguns segregacionistas tentam solidificar-se na biologia para sustentar diferenciações entre meninos e meninas na prática da atividade física, mas não consideram todo o processo que vem desde a descoberta do sexo do bebê.  Quando menino, em especial o pai, já o projeta como o novo “melhor do mundo”, seus sonhos e anseios são para que seu filho se construa a partir do futebol e com isso ao nascer, presentes inerentes a modalidade já ganham destaques em seu quarto e de forma ao contrária, quando é menina, o ideário da princesa pairam entre os pais. Pouco se vê pai e mãe projetando, ou vislumbrando filha esportista. 

Diante a esses cenários o estímulo a cultura corporal de movimento fica quase que perene aos meninos, com seus brinquedos vinculados a prática esportiva, e para as meninas coaduna o sonho dos castelos, da intelectualidade, atrelado aos afazeres domésticos e a maternidade, representado pelo imaginário social, das “panelinhas”, “casinhas”, “vassourinhas” e “bonecas”.

Mas mesmo diante dessa cultura que vivemos, não podemos incorrer no erro e afirmar que as práticas corporais exitosas são de exclusividade masculina; como bem disse Daolio (2003, p.108) “[...] nem todas as meninas são inábeis e nem todos os meninos são hábeis”. 

Diante a construção dessas subjetividades, do “esportista” e da “princesa” as ações iniciadas “na” e “pela” família são preponderantes para as diferenças de acervos motores. Aos meninos são permitidos o brincar intensamente na rua (quando existe a rua), são estimulados a irem nas escolinhas de esportes, mais do que as meninas. Esses tratamentos distintos são os principais fatores para que os meninos, em números, sejam mais “hábeis” do que as meninas.

Com base nos meus doze anos de experiência na educação física escolar, é notório que com o passar dos anos, aumentem essas diferenças e essas no ciclo 1 são quase irrisórias, tornando-se mais perceptíveis no ciclo 2; isso nos leva a considerar que a construção de “antas” adentram ao campo cultural em detrimento ao biológico. 

E importante salientar que mesmo diante ao que foi apresentado, existem muitas práticas corporais que há êxitos maiores entre as meninas, como por exemplo as atividades rítmicas e expressivas, e podemos afirmar o que distingue meninas e meninos nessas práticas também é a cultura.

Dentro de uma cultura machista como a nossa, se o garoto buscar atividades relacionadas a determinadas danças, o preconceito passará pela sua vida em algum momento, de igual forma, quando uma garota se permite a aventurar-se, desde pequena, ao mundo do futebol ou futsal. 

Dois pontos devemos explanar: 1) estamos falando sobre a cultura brasileira; 2) em concordância com Daolio (2006, p.110) quando diz: “não pretendo aqui propor que haja uma construção idêntica dos corpos dos homens e das mulheres”, ou seja, é de claro consenso a existência de diferenças, o que se pretende é entender essas manifestações, para que possamos contribuir da melhor maneira possível na formação das nossas alunas e alunos, oferecendo as mesmas possibilidades de práticas corporais. 

Fecho esse breve texto parafraseando Daolio (IDEM, p.118): 

Desta forma, meninos e meninas poderão fazer aulas conjuntamente sem nenhum tipo de constrangimento e a educação física não estará mais contribuindo para a criação de “antas” [...] nem de “trogloditas”


O professor Igor Moreira é mestre em Políticas Sociais e docente no curso de educação física da Escola Superior de Cruzeiro - ESC. 


O Instituto Esporte Vale atua na formação de profissionais competentes para o ensino do esporte. 

www.ievale.com.br


Acreditamos no poder transformador do esporte


Você que compartilha dessa ideia, siga o IEVALE nas redes sociais, compartilhe nossos conteúdos e contribua para juntos avançamos no diálogo sobre o esporte.


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Ensino do esporte na escola inovação ou mera reprodução?

 

Texto escrito por José Martins Freire Júnior

No Brasil, o primeiro contato das crianças e adolescentes com o esporte, geralmente, ocorrem na escola durante as aulas de educação física escolar.  No meu caso não foi diferente. Iniciei minha vida esportiva aos 12 anos de idade, em 1999, na modalidade handebol e após alguns meses já estava inserido na “seleção” da escola para disputar competições e torneios escolares. 

Essa atração pelo esporte perdurou até o último ano do ensino médio em 2004, ao concluí-lo, passei a competir em Jogos Regionais representando a cidade de Aparecida- SP. Dois anos mais tarde, em 2006, ingressei no curso de graduação em Educação física e nos anos de 2009 e 2010, obtive no referido curso, os títulos de licenciatura e bacharel, respectivamente. No entanto, pude constatar nesta trajetória do ensino superior, que a maioria das disciplinas esportivas refletia a minha prática da educação física escolar, ficando apenas em torno da reprodução de técnicas e fundamentos esportivos.

A partir desta experiência pautada de “mera reprodução de movimentos”, foi possível perceber que o esporte não estava sendo utilizado como um meio educacional, pois não estava sendo construído acerca de sua história e conceito, nem dos valores que este rico conteúdo costuma envolver. No entanto, destaco a atuação de dois professores que, em certo momento da graduação, exatamente no ano de 2007, durante as aulas das disciplinas esportivas de futebol de campo e de voleibol, os mesmos mostraram o outro lado do esporte, trazendo a preocupação em utilizar estratégias que fomentassem o aprendizado da criança, que além de desenvolver capacidades físicas, técnicas e táticas, também educasse.

Fatores estes que foram preponderantes para a ampliação do meu modo de pensar o esporte, contribuindo para a expansão das possibilidades na minha prática docente. Ao me graduar no ensino superior, no ano de 2010 passei a ser treinador de handebol da categoria sub-21, das equipes feminina e masculina de uma pequena cidade do Vale do Paraíba, além disso, também iniciei a minha fase como professor de educação física escolar, graças aquelas disciplinas citadas da graduação, passei a desenvolver o esporte como um meio educacional com os alunos de 1º ao 5º do Ensino Fundamental I. 

O interesse pelo esporte continuou presente em meus estudos: participei de vários cursos de iniciação esportiva e pedagogia do esporte e em 2012 me tornei professor de uma Instituição de Ensino Superior, pude perceber que algumas das disciplinas esportivas ainda eram pautadas na reprodução de movimentos e das técnicas esportivas, porém, parece não ser um fato isolado, sendo comum em outras Instituições de Ensino Superior. 

Mesmo com as constantes mudanças nas inúmeras áreas do conhecimento, inclusive, a evolução das ciências do esporte fizeram com que fosse necessário buscar um novo modo de entender o esporte e suas diferentes manifestações. E assim o fenômeno esportivo pode ser apresentado em 5 principais e significativas manifestações: Esporte Profissional, Iniciação Esportiva, Esporte como Conteúdo do Lazer, Esporte de Representação e Esporte Escolar (PAES; MONTAGNER; FERREIRA, 2009).

No entanto, mesmo com tantas manifestações esportivas, percebemos que o modelo de esporte profissional ou de alto rendimento, no qual prioriza a reprodução das técnicas esportivas, são reforçados nos cursos de graduação de uma forma tradicional e com isso os futuros profissionais podem preconizar o ensino destes modelos na escola.

Como relata Finck (2012), no qual mostra que os alunos possuem um conhecimento limitado sobre o esporte, pois alguns professores ainda encaram a escola como um espaço de formação de atletas, com isso cobram a execução correta das técnicas esportivas, deixando de lado o caráter lúdico e prazeroso do esporte, desconsiderando assim os movimentos espontâneos e a expressividade dos alunos. 

A educação física escolar deve pautar-se na formação integral dos alunos, visando desenvolver os aspectos: sociais, cognitivos, motores e afetivos. Fazendo com que as aulas se tornem espaços para a observação, manifestação e transformação dos aprendizados, para que os alunos possam transferi-los para a vida. O esporte é um caminho para isso, desde que não seja desenvolvido apenas por meio do modelo do esporte profissional, mas pela valorização do processo de ensino aprendizagem e das relações pessoais, dando importância a totalidade do ser humano (GALATTI; PAES, 2006). 

Para que o aprendizado ocorra de maneira satisfatória é importante que o professor possua uma conduta pedagógica centrada no aluno e dependendo do estilo que o professor adote pode favorecer um melhor desenvolvimento de sua turma, sendo assim, cada atividade, cada esporte, cada conteúdo possuem aspectos a serem ensinados por determinados estilos que permitam a produção de novos conhecimentos (KRUG, 2009).

Diante disso, abro um parêntese para alguns questionamentos, será que os professores de Educação Física modificaram a sua forma de ensinar o esporte na escola? Quais as modalidades esportivas ensinadas? Quais são os conteúdos esportivos ensinados na educação física escolar? A prática esportiva contribui para a formação dos alunos dentro do ambiente escolar?

E você profissional de Educação Física escolar está educando pelo esporte, ou seja, fazendo com que seus alunos sejam autônomo e protagonistas das aulas ou está fazendo com que apenas reproduzam movimentos?


O professor José Martins Freire Júnior é mestre em educação física e docente no curso de educação física da Escola Superior de Cruzeiro - ESC.



O Instituto Esporte Vale atua na formação de profissionais competentes para o ensino do esporte. 

www.ievale.com.br


Acreditamos no poder transformador do esporte. 


Você que compartilha dessas nossas ideias, siga o IEVALE nas redes sociais, compartilhe nossos conteúdos e contribua para juntos avançamos nos diálogos sobre o esporte.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Os aplicativos substituirão os professores?


 

Texto escrito por Gabriel Silva

No processo de ensino-aprendizagem, atualmente temos basicamente duas formas de estimular o conhecimento. Podemos separar em pensamento dialético e anti-dialético. 

No dialético, aparentemente, mais simples e de fácil manejo, no entanto, não menos importante quando se comparado ao uso da tecnologia. O dialético se desenvolve por estímulos, símbolos da língua, leitura, escrita, no caso esportivo, o gesto e o movimento são linguagens. Assim, no contexto da educação esportiva pode acarretar em aspectos negativos, uma vez que a reação dos alunos se torna instintiva, lógica, o famoso “bateu levou”, neste sentido, recomenda-se evitar críticas e comentários no calor das emoções.

A ideia central e o projeto educacional é estar contribuindo para a construção de alunos pensantes, resilientes, que reage não por instinto, mas por discernimento e sabedoria.

Pensadores do quilate de Kant, Freud e Piaget ressaltaram que o papel do professor não é promover repetidores de informações, mas sim, seres pensantes que busquem constantemente melhores estratégias para determinadas atividades, além de entender a razão de tudo aquilo que o faz.

É comum em ambientes do esporte bem como nas aulas de Educação Física, centro de treinamentos ou até em contextos universitários, ocorrer atividades da qual o professor explicou e aplicou determinado conteúdo sem promover uma visão crítica do aluno. A inibição da autonomia do aluno pode gerar limitação em seu desenvolvimento, pois estará desenvolvendo um repetidor de informação.

Augusto Cury (2020) afirmou que o professor que se restringir a formar máquinas e não seres humanos, formar doutrinadores e não seres pensantes estarão tendo a mesma finalidade que o uso de um aplicativo. Sendo assim, é fundamental que o profissional se auto-avalie com freqüência para que suas ações não sejam baseadas em passo a passo, mas sim adaptadas ao seu ambiente e seu público. 

Na atualidade, está cada vez mais frequente o uso de aplicativos nas práticas esportivas por crianças, jovens, adultos e até idosos, assim, muitos que praticam atividades físicas de um modo geral. É um suporte que auxilia no controle do desempenho. Em contra partida, este mesmo aplicativo não é possível medir o nível das capacidades físicas do aluno, além de não considerar o nível de alimentação do praticante, limitações físicas e até o estado emocional, ou seja, há inúmeras limitação. 

Portanto, apesar da tecnologia se apresentar como uma grande aliada dos professores, recomendamos que deve ser muito bem administrada e refletida o seu uso no cotidiano, pois o aplicativo não lhe dá o poder da crítica, nem tão pouco espaço para expressar a autonomia. O professor neste aspecto é insubstituível, neste caso, só o professor possui a sensibilidade e entendimento as expressões humanas, coisa que o aplicativo é incapaz de fazer. Por fim, para o aluno com algum eventual desconforto, seja em qualquer aspecto, podendo ser físico, emocional, ambiental será inútil se queixar com o aplicativo. 


O professor Gabriel Silva é licenciado em educação física e idealizador do Projeto Joga Mais que a partir da prática do futsal procura contribuir na formação de crianças e adolescentes de Ubatuba/SP.


O Instituto Esporte Vale atua na formação de profissionais competentes para o ensino do esporte. 

www.ievale.com.br


Acreditamos no poder transformador do esporte


Você que compartilha dessa ideia, siga o IEVALE nas redes sociais, compartilhe nossos conteúdos e contribua para juntos avançamos no diálogo sobre o esporte.